quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Carmen - Uma Biografia", de Ruy Castro

A tal da memória curta...

Leitura que demorou alguns meses para ser concluída, não por falta de vontade, mas é que no meio da bagunça narrada nos últimos posts faltou tempo para ler. Antes de iniciar a leitura sabia pouco sobre Carmen Miranda (mas arrisco dizer que não menos que as pessoas em geral sabem!). Sabia que ela tem uma música chamada "Mamãe, eu quero", que ela fazia performances com um cacho de bananas na cabeça, com roupas chamativas. Ah, que tinha algumas marchinhas de carnaval. Só.

Ruy Castro é ótimo escritor e me pareceu ser um biógrafo dos mais respeitáveis e com credibilidade. Ele soube, como em poucas biografias que li, contextualizar lugares, diferentes momentos da história, expressões locais e gírias.  E fez um trabalho único, de grande favor para a cultura brasileira. O resultado de sua pesquisa foram 632 páginas sobre a vida da biografada. 632 páginas! De uma mulher que a grande maioria dos brasileiros conseguem, se muito, escrever 3 linhas. 

Essa leitura me despertou muitas reflexões, mas em especial a questão da "memória curta do Brasil". Termo mais comumente usado quando falamos em política, mas são muitos casos culturais também. 

Carmen Miranda foi uma das maiores cantoras brasileiras em sua época, num tempo em que ainda nem se lançavam LP's, as músicas eram lançadas direto nas rádios. Mais tarde participou de filmes brasileiros de baixíssimo orçamento, alguns inclusive, não fosse por relatos, nem se saberia que existiram, uma vez que seus originais se perderam com o tempo. O sucesso era tal que seus concertos eram sempre lotados, nas madrugadas cariocas. E quando algum estrangeiro visitava a cidade era ponto garantido que seus anfitriões os levavam. Numa dessas um empresário americano compareceu à um club que Carmen estava se apresentando. Foi amor à primeira vista. Depois de alguns dias de negociação Carmen se mudou de mala e cuíca para os Estados Unidos.

Lá iniciou uma promissora carreira em teatros, mais tarde indo aos cinemas -- também cantando por lá suas músicas em português. Já com a carreira estabelecida Carmen chegou a ter o maior salário pago a uma mulher em solo americano. 

Infelizmente todo esse sucesso era devido à personagem e não à mulher. Nas décadas em que morou lá e atuou, Carmen sempre teve que encenar a mulher latina -- não necessariamente brasileira, por vezes a mexicana ou a cubana eram mais vendáveis --, exagerada, chamativa. Fazia em média 3 shows por noite, em diferentes clubes e cabarés. Para conseguir dar conta começou a tomar remédios para dormir, e por consequência também para acordar. Isso em uma época que essas drogas legais ainda eram estudas e seus riscos eram desconhecidos. 

Nesse ponto é possível fazer uma ponte entre Carmen e Marylin Monroe. Ambas sonhavam em se casar (uma se casou e a outra não, mas ambas viveram relacionamentos de fachada), sonhavam em ter filhos (nenhuma teve), e sonhavam em largar tudo para serem donas de casa exemplares (infelizmente não tiveram tempo). Quanto à realidade, ambas eram estereotipadas (Marylin sempre era vista como a loira-burra-gostosa), foram por determinado momento a pupila de seus respectivos estúdios cinematográficos, e eram viciadas em medicações calmantes e estimulantes (mesmo não tendo consciência disso, e achassem que a medicação apenas as ajudava). 

Quando da sua última visita ao Brasil, haviam se passado 14 anos que Carmen não pisava em solo brasileiro. Ficou aqui por 4 meses, mais em reabilitação do que aproveitando seu povo e cidade. 2 meses após seu regresso nos Estados Unidos morreu em sua casa, aos 46 anos de idade, vítima de infarto. Não pode realizar sua vontade de aproveitar mais um carnaval brasileiro, incógnita entre a multidão. E seu plano de eventualmente voltar a morar aqui também não pode chegar a ser considerado seriamente.

Seu enterro foi no Rio de Janeiro, uma semana depois do ocorrido. Causou grande comoção e alguns videos de matérias da época estão disponíveis na internet (assim como muitas apresentações, entre elas sua última, gravada algumas horas antes de sua morte).

Causa indignação fazer uma rápida busca e constatar que há pouco, ou quase nada, de Carmen disponível à venda no Brasil. Uns poucos filmes, uma ou outra coletânea com no máximo 16 músicas. Pouco para quem tem mais de 300 registros. Nas lojas norte-americanas há mais fartura disponível. Irônico e envergonhador. 

Li por aí que Pedro Almodóvar já manifestou interesse em fazer um filme sobre a vida de Carmen, baseado nessa biografia, mas foi impedido porque os direitos atualmente pertencem a Rede Globo, que os comprou com o intuito de fazer uma mini-série. Nada foi feito ou planejado ainda.

É triste ter que admitir a memória curta de nossa pátria, e mais ainda a ignorância geral em volta dessa artista. Torço muito para que nos anos vindouros sejam disponibilizados mais filmes, músicas e divulgação em cima de sua história. Merecemos e devemos saber mais sobre Carmen Miranda. Vida longa!


segunda-feira, 25 de maio de 2015

E continua a bagunça

Continua tudo uma bagunça. Estou começando a achar que é fase, coisa que passa, que todo mundo tem que viver. No entanto segue angustiante. No trabalho está sendo uma montanha russa, há dias que adoro, há dias que não sei como vou aguentar até o final. Não é uma boa época pra ninguém pedir demissão. Sigamos fortes, pois. Coisas boas também aconteceram, mas de lugares inesperadas. Voltei ao dentista, porque quebrei uma parte de um dente. Isso é bom. Conheci a família da minha mãe - que é bem grande (acho que já falei). Nos relacionamentos continua tão agoniante quanto antes. Relato chato, sobre uns dias chatos.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Tá tudo uma bagunça

Fui numa festa ontem, cheguei em casa às 4 e pouco, minha amiga dormiu na minha cama, e um amigo que estava em outra festa veio dormir comigo, no chão. Acordei às 11 e tava chovendo, voltei a dormir, acordei meio dia e continuava chovendo. Tive que levantar, porque hoje é dia das mães e tinha que ir pra casa. Parou a chuva, Mel foi embora, acordei o Roger, porque ele também tem uma mãe pra ver hoje. Tomei banho, fui pra casa dos meus pais, no caminho: chuva de novo. Ainda estou com os pés molhados. Família reunida e falando sem parar, às vezes é bom, mas nem sempre. Planos de uma viagem dentro de algumas semanas, pra reunir a família toda da minha mãe - que é bem grande, nem conheço todo mundo - em prol do aniversário de um tio - que por sinal, não conheço, só ouço falar. Dormi na cama dos meus pais, porque melhor lugar não há. Dormi por umas 3 horas e voltei pra casa. Trouxe comida pros amiguinhos, mas acho que quem comeu mais fui eu mesmo. Amiguinhos se reuniram aqui na sala pra contar velhas histórias de desilusões e rir de vídeos bobos. Fumei um cigarro na sacada com a vizinha - fumei vários na verdade, durante o dia. Todos foram dormir. Lavei umas roupinhas chave, porque talvez terei um ~encontro~ amanhã, talvez irei ao cinema. Pra beijar, porque não gosto de filme. Aliás, por falar nisso, não falei com o boy1 hoje. Mas em compensação as coisas com o boy2 vão muito bem. Quer dizer, estavam indo, até eu descobrir o instagram dele e confirmar aquilo que eu já achava: não temos nadinha a ver um com o outro. Mas enfim, amanhã talvez eu tenho um encontro. Fiquei fazendo stalkes vários no instagram e achei que seria adulto dar uma olhada no perfil de um velho e persistente crush. Qual minha sorte quando curti uma foto sem querer? Tive que segui-lo pro climão ficar menor. Ai, vida. Amanhã minhas férias já não mais existirão, e eu terei que acordar cedo, de modo que já deveria estar dormindo. Mas tá tudo uma bagunça e estou sem nada de sono. Li mais um ensaio do livro da Virginia, sobre Thoreau. Aproveitei a vibe stalk e já mandei ver nele também. Que vida interessante esse cara teve. Mas agora são 4:09 da manhã e logo mais estarei que estar disposto para 8 horas de trabalho e paciência e talvez um encontro. E é triste saber que escrever sobre todas essas coisas talvez, na verdade, não ajudem em nada.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

"Como ser uma dona de casa in 3 easy steps" ou "Nasce mais uma Amélia na vizinhança"

Estou há quase 4 meses morando fora da casa dos meus pais. Se o tempo pode ser relativamente curto, as novas experiências, por outro lado, não as foram. Sempre temos uma pré-ideia sobre as coisas e ensinamentos da vida - ouvimos falar dos desafios diários, a convivência com pessoas, os dotes da cozinha e vida doméstica. Mas só os entendemos e sentimos quando vivenciamos. Pequenas coisas para mim, podem ser grandes catástrofes na vida de outros. Mudanças de humor que nunca tive tornam-se rotineiras quando vive-se com outras três pessoas. As culturas, educações, visões e modos de vidas são todos diferentes - apesar de ter uma linha que acabe nos ligando e faz com que tenhamos uma convivência razoavelmente boa. A vida se torna um guia prático e diário de como ser uma dona de casa. Hoje repenso em nunca ter me interessado em cozinhar, ou nunca ter realmente visto o valor das coisas no mercado, por exemplo. Poderia também ter observado mais as quantidades compradas, marcas, modos de uso. Dicas valiosas, que quando se vive no ninho familiar, deixamos passar. Aprendi à fazer arroz soltinho (prefiro unidos venceremos, mas por questão de time maior o soltinho é o que sempre vai à mesa - não que tenhamos uma mesa), abobrinha refolgada (minha favorita), batata assada, carne moída cozida e outras coisinhas. Aprendi a comer em restaurantes, mercados, qualquer lugar que ofereça comida em dias que não faço ideia do que cozinhar. Eu que sempre morei em casa com chão de lajota tive que pegar na marra as formas de se limpar e conservar chão de tacos. Também tive que aprender a desentupir ralo do banheiro, que por mais nojento que seja é necessário. Aprendi a lavar roupa no tanque, atividade que parece simples mas que requer horas para um serviço bem feito. E depois de roupas lavadas, aprendi a pendurar roupas no varal sem usar grampos (os "nózinhos" de cuecas e calcinhas no varal, se bem analisados, são bem bucólicos). A convivência de fato é um exercício diário. Aprender a entender os humores das pessoas, de respeitá-las, e ignorá-las quando necessário, é atividade das mais difíceis. Por outro lado, quando se tem a oportunidade de morar na mesma casa com alguém cuja amizade se estende há 11 anos, também é muito prazeroso ver que sempre é possível melhorar e sentir afeto, companheirismo e cumplicidade ainda mais fortes. Também tenho raciocinado sobre a metáfora do pássaro que aprende a voar, que quer sempre vôos mais altos. Uma vez fora da casa dos meus pais, quero mais. Vejo agora problemas que há muito meus amigos já me falavam. Sobre a cidade, possibilidade de empregos, pessoas e lugares. Quero morar em uma cidade maior. Já é uma meta. Tenho alguns meses ainda para planejar, ver e rever a situação. É o próximo objetivo. Li pouco desde que vim para cá. Alguns livros da Agatha Christie aqui, um livro de um escritor mexicano ali. Estou numa fase de transição sobre as coisas que gosto e das coisas que outrora gostava. Nenhuma grande conclusão por enquanto. Pro futuro apenas me desejo serenidade e saúde. Um pouco de determinação e força também.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Tô saindo da casa dos meus pais!

Há muito não escrevo por aqui, parte por ter lido pouco no ultimo ano, parte por estar com tempo escasso, e outra ainda por meu teclado estar estragado (sim!). Mas ando inspirado ultimamente: to saindo da casa dos meus pais pra morar com 3 amigos. Que loucura! Mas boa.

Hoje pintamos o meu novo quarto, no qual estarei habitando dentro de algumas semanas. E apesar de saber que as grandes novidades ainda estão por vir já me deparei com umas situações engraçadas (?). 1°: tinta de parede é cara. CA-RÍS-SI-MA, eu diria. Especialmente se você quiser uma cor bacana.
2 º: adequar seus antigos moveis a seu novo espaço é penoso. Tem coisas que simplesmente não caberão, e lide bem com isso.
3°: seus pais podem ficar tão felizes quanto você com a mudança (algo me diz que eu deveria estar triste)
4°: a grande maioria das pessoas a quem você contar sobre a mudança primeiro farão cara de choque e depois acrescentarão a pergunta: você brigou com seus pais? No meu caso NÃO, dai em seguida eles fazem cara de 'ufa!' e me felicitam pela decisão e pelo grande passo dado.
5°: você - finalmente - aprende a poupar dinheiro em prol de algo durável.
6°: pesquisa no Google coisas que nunca passaram pela sua cabeça, como: como pintar uma parede, como encaixotar adequadamente seus pertences, como otimizar espaços, etc. E aprende muito com isso.
7°: o frio na barriga passa depois de alguns dias.

Ainda vem muito pela frente, e essa é uma das partes mais legais. Eu estava precisando de algo assim. Por ora são essas as novidades, mas pretendo escrever mais por aqui.

Abraços!

domingo, 6 de abril de 2014

"Como ter uma vida normal sendo louca" de Jana Rosa e Camila Fremder

Tenho tido dificuldade em ler um livro todo, inteiro, do começo ao fim. Meu trabalho tem me consumido física e mentalmente -- mas amo ele ainda assim. Definitivamente não é tempo para livros extensos, romances, grandes reflexões. Como ter uma vida normal sendo louca é o primeiro livro que finalizo a leitura desde novembro do ano passado. Parte se deve ao livro ser fino -- nunca imaginei que o tamanho de um livro realmente contaria um dia.. --, parte por ser um livro humorístico, e bom humor é tudo o que tenho precisado.


De alguns anos para cá abandonei completamente os livros de ficção científica, livros que tratem de 'mundos possíveis' e impossíveis, outras dimensões e etc. Gosto daquelas histórias que poderiam ter acontecido ou que aconteceram (não-ficção ainda é meu gênero literário favorito disparado). Mas abri uma brecha e me diverti com esse livrinho em questão. Nadinha do que está escrito lá é coerente. Talvez faça lá algum sentido para uma menina de 12 a 14 anos que ainda está na fase de pico das picuinhas escolares e sonhando com um futuro muito glamoroso.

Em suma, nunca vi tanta bobagem num livro só, mas é uma bobagem engraçada, cativante. Aqui as aparências contam mais que tudo na vida e parecer o que não é, é a lei da selva. Aqueles nossos pensamentos mais loucos e irracionais são tratados ao longo das páginas como se fosse a coisa mais adequada a se fazer, e aí que está o ponto em que ganha os leitores.

As moças escritoras são autênticas e engraçadas, vi uma entrevista em que a entrevistadora questiona sobre as vendas altas do livro (esgotou rapidamente nas livrarias de São Paulo e foi primeiro lugar em livrarias virtuais) e a resposta da Jana foi: porque ao começar a ler o livro automaticamente você começa a perder calorias <3

Gosto de gente e escritas assim: espontâneas, desbocadas. E no humor é o único lugar onde dispenso coerência. Humor só tem que ser engraçado, seja lá como o façam, seja normal, seja louco. No humor apenas seja. .

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pesquisar as fontes é preciso

Tô lendo um librinho chamado ‘Bermuda: Triângulo da Morte’,escrito por Martin Ebon. Como o título sugere, trata-se de um estudo sobre o Triângulo Bermuda — famoso local na costa oeste norte-americana onde aconteceram supostos desaparecimentos de navios e aviões. Durante toda a narrativa é teclado na questão de que muito provavelmente esses mistérios que ocorreram lá só são mitos por falta de pesquisa. E não nos referimos aqui a estudiosos do assunto, esses já o fizeram e tentam desmitificar o lugar há anos. A pesquisa necessária é a do povo, de quem ouve a história e passa pra frente. 
Nos vários artigos contidos no livro, escrito por vários estudiosos ou pessoas que presenciaram momentos, a ideia é: muitos dos desaparecimentos atribuídos ao local talvez nunca tenham desaparecido nem sequer perto de lá. O desaparecimento de navios era algo comum até a década de 40 do século passado, quando não havia formas de se comunicar com as pessoas do navio, nem elas com as pessoas em terra firme. Depois disso houve alguns desaparecimentos, mas acredita-se que foram por causa de explosões já que não houve pedidos de ajuda, ou qualquer outro tipo de comunicação. 
A questão é: esse livro foi escrito em 1975. Imagina hoje em dia como não anda essa cultura do diz-que-me-diz-que? Não raro vemos por aí afirmações como ‘a gasolina no Brasil é a mais cara do mundo’, ‘os políticos do Brasil são os mais corruptos’, ‘é ridículo como o Brasil tem os maiores impostos’, “a internet no Brasil é mais cara de todas’. Fico me perguntando se as pessoas que falam essas coisas e as que passam pra frente dedicaram algum momento dos dias delas para averiguar se tais informações são corretas. Creio que não. 
Desde que o mundo é mundo nós nos contentamos com informações mastigadas, com senso-comum. É o que acontece com o Triângulo Bermuda: pelo menos 90% das pessoas que sabem sobre o Triângulo nunca leram sobre o assunto, apenas ouviram falar de suas histórias mirabolantes e passaram pra frente. Até porque, bem sabemos, uma mentira bem contada assume ares de verdade. Por que duvidar, não é mesmo? 
(A título de curiosidade para quem venha interessar: a gasolina mais cara do mundo atualmente está na Turquia, e o Brasil possui o 39º lugar no rancking. De acordo com estudos, em 2013 a Somália foi o país mais corrupto. O imposto mais caro do mundo é na Suécia. E sim, apesar de o Brasil ter uma das internetes mais caras do mundo, ele ainda fica atrás da Argentina.)