terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

"Harry Potter e a Pedra Filosofal", de J. K. Rowling

Releitura que há muito vinha evitando, desde a minha tentativa fracassada de reler O Hobbit -- livrinho que me fez viajar na infância, assim como a saga do bruxinho mais famoso do mundo. Tinha medo de perder a graça, o respeito e admiração que ainda mantinha pela escritora. Em algum momento, por volta dos meus 17 anos, passei a preferir a literatura de não-ficção, mesmo os romances que li eram romances possíveis. Falha minha não ter uma imaginação tão criativa para poder acompanhar as narrativas fantásticas.



Creio que dispensa apresentações, mas vamos refrescar rapidamente a memória sobre a história desse primeiro livrinho: Harry Potter é um menino de 11 anos, órfão, que mora com seus tios e seu primo, os Dursley -- pessoas desagradabilíssimas. Mesmo havendo quartos o suficiente para todos na casa, Harry vive em uma especie de dispensa em baixo da escada. Em determinada manhã Harry e seus tios são surpreendidos pela chegada de uma misteriosa carta, que Harry não chega a ler. A partir de então as correspondências se tornam frequentes, cada dias mais precisas quanto a seu destinatário e em maior quantidade. Tão misteriosas quanto as cartas é o comportamento de seus tios que não deixam Harry se aproximar delas, drama que acaba com a chegada de um gigante, Rúbeo Hagrid, que conta a Harry que as correspondências são da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts convocando-o para o ano letivo que começa e poucas semanas, porque sim, Harry é um bruxo.

A partir daí somos apresentados ao Beco Diagonal, um centro comercial bruxo, onde se encontra absolutamente tudo que qualquer bruxo precisa -- de livrarias a lojas de roupas, loja de varinhas e um banco (curiosamente, acaba de me ocorrer, de que se bem me lembro, em toda a série não é citada a existência de supermercados). Há também uma curiosa passagem secreta dentro do maior metrô de Londres que dá acesso ao Expresso que os leva a Hogwarts.

Hogwarts é um castelo mágico, munido de um feitiço que faz com que pessoas não bruxas que o cheguem a ver, apenas encontrem um lugar fantasmagórico com uma placa indicando que a construção encontra-se abandonada e que a mesma é muito perigosa. Através dos séculos Hogwarts educou bruxos de todas as estirpes, apesar de não ser a unica escola de bruxaria no mundo (recentemente descobrimos que há uma inclusive no Brasil, CasteloBruxo).

Entre aulas de Poções, Ensinamentos Contra As Artes das Trevas, Transfiguração, entre outras, Harry constrói fortes laços de amizade com Rony Weasley e Hermione Granger, assim como grande desafeto por Draco Malfoy e o Professor Severo Snape.

Bom, creio que já me estendi demais, dado que essas informações, assim como o final da trama já é de conhecimento público. Portanto, meu foco nesse e nos próximos livros é falar sobre questões gerais de tradução e eventuais curiosidades, assim como leve comparação com os filmes -- que foram falhos em diversas ocasiões.


Questões gerais sobre a tradução
Não existe tradução perfeita, sabemos. Em especial quando o material a ser traduzido contém em seu vocabulário palavras cridas pelo autor, que é o caso de Harry Potter. Devemos também nos lembrar que quando da ocasião da primeira tradução ainda não se sabia que a série alcançaria tamanha popularidade e que futuramente uma desatenta tradução poderia influenciar num mal entendimento sobre o significado de determinadas palavras. Vamos analisar alguns casos:
  • Muggles - palavra designada para identificar pessoas não bruxas, tendo aqui a famigerada tradução para 'Trouxas'. Fica evidente, logo nas primeiras páginas, que muggles não é uma palavra familiarizada na língua inglesa, quando Tio Valter está na rua e ouve alguém o chamando por esse nome, mas logo em seguida deixa de dar atenção "seja lá o que isso quer dizer". Trouxa, por outro lado, existe em nossa língua, e aliás, acarreta certo tom de zombaria. 
  • Sherbet Lemon - seria algo como Raspinha de Limão, como um frozen, também citada logo no início do livro e traduzido como "Sorvete de Limão". A discrepância aqui acontece quando o Professor Dumbledore oferece-o a Professora Minerva tal iguaria, e ela recusa pois não sabe do que se trata. Eventualmente, em outros livros, fica de nosso conhecimento que existem sorveterias no mundo bruxo, logo, ela teria reconhecido caso fosse um sorvete.
  • Mugwump - achei muito curioso o uso da expressão 'cacique supremo' para descrever Dumbledore na primeira carta de Hogwarts que Harry lê, uma vez que não há nenhum elemento indígena em toda a série. Mugwump seria melhor traduzido aqui como 'magnata'. 
  • Beady Eyes - no capítulo em que Harry vai ao zoológico, os olhos da cobrinha brasileira nascida em cativeiro, são descritos como 'olhos de contas'. Fiz até uma pesquisa no google, mas não encontrei nenhum exemplo que pudesse espairecer minha mente em relação a tal formato. Novamente um erro bobo para uma palavra que poderia ser traduzida tanto para 'olhos redondos', quanto para 'olhos lustrosos'. 
Há de se reconhecer que a tradutora teve grandes acertos, como a tradução de Peeves para Pirraça -- um poltergeist que vive em Hogwarts. Ou Quidditch para Quadribol.
Tenho muita implicância com o verbo "Por" (eu ponho, tu pões, etc..), penso que sempre pode ser melhor utilizado o verbo "Colocar", que fica mais formal e causa menos estranhamento. Infelizmente, pelo menos nesse primeiro livro, a tradutora prefere a primeira opção, que nos dá aquela sensação de que a qualquer momento vamos nos deparar com um 'ponhar' no meio da história. 
Algo que me deixou muito incomodado nessa edição que li foi que, por acaso lendo o original em inglês, reparei que toda uma frase foi excluída no capítulo do Chapéu Seletor. Foi um acaso, mas que me deixou com um pé atrás por toda a leitura, pensando quanta linhas mais podem ter sido deixadas de fora (até porque, já sei de antemão que algo similar acontece no próximo o livro). A frase em si é muito simples, e não tenho informações se em edições futuras ela foi adicionada, mas a título de curiosidade aqui está ela: "Malfoy went to join his friends Crabbe and Goyle, looking pleased with himself."  Que, tradução livre, seria: "Malfoy se juntou a seus amigos, Crabbe e Goyle, parecendo satisfeito consigo mesmo."

Curiosidades
  • Logo nas primeiras páginas é brevemente comentado sobre Sirius Black, padrinho de Harry, quando Hagrid explica que foi ele quem emprestou a moto voadora com a qual chega a cena. Assim como Dédalo Diggle (membro da Ordem da Fênix, que dá as caras novamente no livro homônimo), Tia Guida (que desde sempre já não gostava de Harry), Sra. Figg (uma vizinha velha, cheia de gatos, que às vezes cuida de Harry, e volta aparecer macabramente no futuro da série).
  • Pra quem sempre ficou curioso de como os pontos de cada casa são contados, já que o tempo todo os alunos ganham e perdem pontos e não há um aparente caderno para se fazer essas anotações, é explicado brevemente que há uma ampulheta mágica que faz esse acompanhamento durante todo o ano letivo, ampulheta qual todos os alunos tem acesso. 
  • Podemos notar desde o primeiro livro os sinais de uma possível bondade em Snape. Não chega a ser uma simpatia, claro. Mas é evidente que ele tenta proteger Harry de certos males, por conta, quem sabe, de uma gratidão a seus pais. 
  • Também para quem sempre ficou curioso de como Hagrid colecionou as fotografias dos pais de Harry para montar o álbum que ele lhe dá no final da história, é explicado que Hagrid mandou corujas para todas as pessoas que era de seu conhecimento que conviveram com Lilian e Tiago Potter, solicitando as mesmas. 
Partes não incluídas ou adaptadas para o filme
  • Nesse primeiro livro há uma segunda partida de Quadribol, de Grifinória contra Sonserina, na qual Snape é o árbitro, que apesar de favorecer a sua casa regente, está ali para evitar que outro incidente como o da vassoura descontrolada aconteça novamente -- apesar de que não tenhamos essa informação em tempo real. A partida acaba em menos de cinco minutos, quando Harry pega o pomo de ouro. 
  • Norberto, o dragão norueguês, na verdade é levado para Carlinhos -- irmão mais velho de Rony, que estuda dragões -- por outros bruxos amigos dele. Ninguém na escola fica sabendo da existência dele, à exceção de Harry, Rony, Hermione e Draco. E portanto Hagrid também não leva nenhum tipo de punição por o ter mantido clandestinamente em sua casa. 
  • Nos capítulos finais, quando Harry e seus amigos conseguem entrar no alçapão guardado por Fofo, o cão de três cabeças, as chaves que no filme são apresentadas com asas de que remetem a mosquitos, no livro na realidade são descritas como "chaves aladas", com penas. Também nesse capítulo ficamos sabendo que há mais duas etapas de provas que não foram incluídas no filme, sucessivamente a 4ª etapa: lutar contra um Trasgo das montanhas, que a essa altura já havia sido derrotado pelo Professor Quirrel. E a 5ª: uma sala com cinco poções e uma charada, três das poções são fatais, uma possibilita ir a diante e a última possibilita voltar atrás.  

Nas últimas páginas, quando Harry já salvou o dia e está internado na Ala Hospitalar, há um diálogo que chamou minha atenção, que basicamente consiste em Harry perguntando para o Professor Dumbledore o por quê de Voldemort o querer matá-lo, ao que recebe como resposta que "você vai saber, um dia...por ora tire isso da cabeça". Por algum motivo esse diálogo me intrigou, e me pareceu que eu deixei escapar alguma coisa na vez anterior a que li todos os livros. Uma impressão de que não é tão simples quanto parece. No decorrer das releituras, caso não tenha sido apenas coisa da minha cabeça, incremento esse post com alguma resposta melhor que os livros nos dê. 

Gostei muito dessa releitura, felizmente minha preocupação de que a história perdesse a mágica aos meus olhos estava errada. Harry Potter tem em mim esse sentimento que poucos personagens me fazem sentir. Assim como para Holden Caulfield (O Apanhador no Campo de Centeio) e Eduardo Marciano (O Encontro Marcado), que já li mais de uma vez suas histórias, para com Harry também continuo me angustiando e torcendo para que tenha um final feliz, mesmo que o final já tenha sido escrito e já sejam do meu conhecimento. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

"O Médico e o Monstro", de Robert Louis Stevenson

...O homem não é de fato um, mas dois. Digo dois porque meu conhecimento não vai além. Alguns me seguirão, outros igualmente me superarão, e ouso dizer que, no fim, o homem será conhecido como um mero ser onde habitam seres múltiplos, incongruentes e independentes.

 Mesmo que, nunca tendo chegado perto desse livro, você já saiba o final, vale a leitura. Robert Louis Stevenson criou nesse romance o Dr. Henry Jeckill que, enclausurado à hipocrisia dos bons costumes de uma Londres vitoriana, se vê obrigado a criar uma poção -- ele era boticário -- para se transformar em seu alter ego, Mr. Edward Hyde (tá batido já, além de estar na cara, mas aqui entra um trocadilho com o verbo "to hide" do inglês "esconder").

A hipocrisia ainda existe, está dentro de nós, por mais que lutemos contra. E somos educados a sempre ter uma opinião sobre as coisas, em ver apenas o positivo ou o negativo. Particularmente quando nos referimos a outras pessoas. O fato é que fica difícil nos catalogarmos, em escrever um 'Quem sou eu' sincero, uma análise mais profunda em frente ao espelho, se colocarmos tudo na balança, no seu devido peso.

Com o tempo, eventualmente, assumimos uma personalidade dominante. Temos também nosso 'Sr. Escondido'. O amigo durão talvez seja o primeiro a chorar vendo uma comédia romântica, a Maria que ajuda uma ONG para cães de rua talvez seja a mais ferina língua ao falar da vida alheia, Sr. Desapegado talvez encontre alguém que desperte o Sr. Obsessivo que estava adormecido, o Pedro que condena o abate de animais talvez tenha se deliciado com um Chester na véspera do Natal, no almoço do dia seguinte e quem sabe também no jantar.

Não somos perfeitos, ainda bem. Melhor ainda é que um século e meio se passou e não sentimos mais a necessidade de viver de aparências morais (tá, quem sabe um pouquinho no Instagram e no Facebook, mas é virtual e tem família, né?).

Stephen King disse que o Médico e o Monstro é o arquétipo do lobisomem na literatura. Talvez sejamos todos um pouco animal, um pouco homem.




 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Carmen - Uma Biografia", de Ruy Castro

A tal da memória curta...

Leitura que demorou alguns meses para ser concluída, não por falta de vontade, mas é que no meio da bagunça narrada nos últimos posts faltou tempo para ler. Antes de iniciar a leitura sabia pouco sobre Carmen Miranda (mas arrisco dizer que não menos que as pessoas em geral sabem!). Sabia que ela tem uma música chamada "Mamãe, eu quero", que ela fazia performances com um cacho de bananas na cabeça, com roupas chamativas. Ah, que tinha algumas marchinhas de carnaval. Só.

Ruy Castro é ótimo escritor e me pareceu ser um biógrafo dos mais respeitáveis e com credibilidade. Ele soube, como em poucas biografias que li, contextualizar lugares, diferentes momentos da história, expressões locais e gírias.  E fez um trabalho único, de grande favor para a cultura brasileira. O resultado de sua pesquisa foram 632 páginas sobre a vida da biografada. 632 páginas! De uma mulher que a grande maioria dos brasileiros conseguem, se muito, escrever 3 linhas. 

Essa leitura me despertou muitas reflexões, mas em especial a questão da "memória curta do Brasil". Termo mais comumente usado quando falamos em política, mas são muitos casos culturais também. 

Carmen Miranda foi uma das maiores cantoras brasileiras em sua época, num tempo em que ainda nem se lançavam LP's, as músicas eram lançadas direto nas rádios. Mais tarde participou de filmes brasileiros de baixíssimo orçamento, alguns inclusive, não fosse por relatos, nem se saberia que existiram, uma vez que seus originais se perderam com o tempo. O sucesso era tal que seus concertos eram sempre lotados, nas madrugadas cariocas. E quando algum estrangeiro visitava a cidade era ponto garantido que seus anfitriões os levavam. Numa dessas um empresário americano compareceu à um club que Carmen estava se apresentando. Foi amor à primeira vista. Depois de alguns dias de negociação Carmen se mudou de mala e cuíca para os Estados Unidos.

Lá iniciou uma promissora carreira em teatros, mais tarde indo aos cinemas -- também cantando por lá suas músicas em português. Já com a carreira estabelecida Carmen chegou a ter o maior salário pago a uma mulher em solo americano. 

Infelizmente todo esse sucesso era devido à personagem e não à mulher. Nas décadas em que morou lá e atuou, Carmen sempre teve que encenar a mulher latina -- não necessariamente brasileira, por vezes a mexicana ou a cubana eram mais vendáveis --, exagerada, chamativa. Fazia em média 3 shows por noite, em diferentes clubes e cabarés. Para conseguir dar conta começou a tomar remédios para dormir, e por consequência também para acordar. Isso em uma época que essas drogas legais ainda eram estudas e seus riscos eram desconhecidos. 

Nesse ponto é possível fazer uma ponte entre Carmen e Marylin Monroe. Ambas sonhavam em se casar (uma se casou e a outra não, mas ambas viveram relacionamentos de fachada), sonhavam em ter filhos (nenhuma teve), e sonhavam em largar tudo para serem donas de casa exemplares (infelizmente não tiveram tempo). Quanto à realidade, ambas eram estereotipadas (Marylin sempre era vista como a loira-burra-gostosa), foram por determinado momento a pupila de seus respectivos estúdios cinematográficos, e eram viciadas em medicações calmantes e estimulantes (mesmo não tendo consciência disso, e achassem que a medicação apenas as ajudava). 

Quando da sua última visita ao Brasil, haviam se passado 14 anos que Carmen não pisava em solo brasileiro. Ficou aqui por 4 meses, mais em reabilitação do que aproveitando seu povo e cidade. 2 meses após seu regresso nos Estados Unidos morreu em sua casa, aos 46 anos de idade, vítima de infarto. Não pode realizar sua vontade de aproveitar mais um carnaval brasileiro, incógnita entre a multidão. E seu plano de eventualmente voltar a morar aqui também não pode chegar a ser considerado seriamente.

Seu enterro foi no Rio de Janeiro, uma semana depois do ocorrido. Causou grande comoção e alguns videos de matérias da época estão disponíveis na internet (assim como muitas apresentações, entre elas sua última, gravada algumas horas antes de sua morte).

Causa indignação fazer uma rápida busca e constatar que há pouco, ou quase nada, de Carmen disponível à venda no Brasil. Uns poucos filmes, uma ou outra coletânea com no máximo 16 músicas. Pouco para quem tem mais de 300 registros. Nas lojas norte-americanas há mais fartura disponível. Irônico e envergonhador. 

Li por aí que Pedro Almodóvar já manifestou interesse em fazer um filme sobre a vida de Carmen, baseado nessa biografia, mas foi impedido porque os direitos atualmente pertencem a Rede Globo, que os comprou com o intuito de fazer uma mini-série. Nada foi feito ou planejado ainda.

É triste ter que admitir a memória curta de nossa pátria, e mais ainda a ignorância geral em volta dessa artista. Torço muito para que nos anos vindouros sejam disponibilizados mais filmes, músicas e divulgação em cima de sua história. Merecemos e devemos saber mais sobre Carmen Miranda. Vida longa!


segunda-feira, 25 de maio de 2015

E continua a bagunça

Continua tudo uma bagunça. Estou começando a achar que é fase, coisa que passa, que todo mundo tem que viver. No entanto segue angustiante. No trabalho está sendo uma montanha russa, há dias que adoro, há dias que não sei como vou aguentar até o final. Não é uma boa época pra ninguém pedir demissão. Sigamos fortes, pois. Coisas boas também aconteceram, mas de lugares inesperadas. Voltei ao dentista, porque quebrei uma parte de um dente. Isso é bom. Conheci a família da minha mãe - que é bem grande (acho que já falei). Nos relacionamentos continua tão agoniante quanto antes. Relato chato, sobre uns dias chatos.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Tá tudo uma bagunça

Fui numa festa ontem, cheguei em casa às 4 e pouco, minha amiga dormiu na minha cama, e um amigo que estava em outra festa veio dormir comigo, no chão. Acordei às 11 e tava chovendo, voltei a dormir, acordei meio dia e continuava chovendo. Tive que levantar, porque hoje é dia das mães e tinha que ir pra casa. Parou a chuva, Mel foi embora, acordei o Roger, porque ele também tem uma mãe pra ver hoje. Tomei banho, fui pra casa dos meus pais, no caminho: chuva de novo. Ainda estou com os pés molhados. Família reunida e falando sem parar, às vezes é bom, mas nem sempre. Planos de uma viagem dentro de algumas semanas, pra reunir a família toda da minha mãe - que é bem grande, nem conheço todo mundo - em prol do aniversário de um tio - que por sinal, não conheço, só ouço falar. Dormi na cama dos meus pais, porque melhor lugar não há. Dormi por umas 3 horas e voltei pra casa. Trouxe comida pros amiguinhos, mas acho que quem comeu mais fui eu mesmo. Amiguinhos se reuniram aqui na sala pra contar velhas histórias de desilusões e rir de vídeos bobos. Fumei um cigarro na sacada com a vizinha - fumei vários na verdade, durante o dia. Todos foram dormir. Lavei umas roupinhas chave, porque talvez terei um ~encontro~ amanhã, talvez irei ao cinema. Pra beijar, porque não gosto de filme. Aliás, por falar nisso, não falei com o boy1 hoje. Mas em compensação as coisas com o boy2 vão muito bem. Quer dizer, estavam indo, até eu descobrir o instagram dele e confirmar aquilo que eu já achava: não temos nadinha a ver um com o outro. Mas enfim, amanhã talvez eu tenho um encontro. Fiquei fazendo stalkes vários no instagram e achei que seria adulto dar uma olhada no perfil de um velho e persistente crush. Qual minha sorte quando curti uma foto sem querer? Tive que segui-lo pro climão ficar menor. Ai, vida. Amanhã minhas férias já não mais existirão, e eu terei que acordar cedo, de modo que já deveria estar dormindo. Mas tá tudo uma bagunça e estou sem nada de sono. Li mais um ensaio do livro da Virginia, sobre Thoreau. Aproveitei a vibe stalk e já mandei ver nele também. Que vida interessante esse cara teve. Mas agora são 4:09 da manhã e logo mais estarei que estar disposto para 8 horas de trabalho e paciência e talvez um encontro. E é triste saber que escrever sobre todas essas coisas talvez, na verdade, não ajudem em nada.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

"Como ser uma dona de casa in 3 easy steps" ou "Nasce mais uma Amélia na vizinhança"

Estou há quase 4 meses morando fora da casa dos meus pais. Se o tempo pode ser relativamente curto, as novas experiências, por outro lado, não as foram. Sempre temos uma pré-ideia sobre as coisas e ensinamentos da vida - ouvimos falar dos desafios diários, a convivência com pessoas, os dotes da cozinha e vida doméstica. Mas só os entendemos e sentimos quando vivenciamos. Pequenas coisas para mim, podem ser grandes catástrofes na vida de outros. Mudanças de humor que nunca tive tornam-se rotineiras quando vive-se com outras três pessoas. As culturas, educações, visões e modos de vidas são todos diferentes - apesar de ter uma linha que acabe nos ligando e faz com que tenhamos uma convivência razoavelmente boa. A vida se torna um guia prático e diário de como ser uma dona de casa. Hoje repenso em nunca ter me interessado em cozinhar, ou nunca ter realmente visto o valor das coisas no mercado, por exemplo. Poderia também ter observado mais as quantidades compradas, marcas, modos de uso. Dicas valiosas, que quando se vive no ninho familiar, deixamos passar. Aprendi à fazer arroz soltinho (prefiro unidos venceremos, mas por questão de time maior o soltinho é o que sempre vai à mesa - não que tenhamos uma mesa), abobrinha refolgada (minha favorita), batata assada, carne moída cozida e outras coisinhas. Aprendi a comer em restaurantes, mercados, qualquer lugar que ofereça comida em dias que não faço ideia do que cozinhar. Eu que sempre morei em casa com chão de lajota tive que pegar na marra as formas de se limpar e conservar chão de tacos. Também tive que aprender a desentupir ralo do banheiro, que por mais nojento que seja é necessário. Aprendi a lavar roupa no tanque, atividade que parece simples mas que requer horas para um serviço bem feito. E depois de roupas lavadas, aprendi a pendurar roupas no varal sem usar grampos (os "nózinhos" de cuecas e calcinhas no varal, se bem analisados, são bem bucólicos). A convivência de fato é um exercício diário. Aprender a entender os humores das pessoas, de respeitá-las, e ignorá-las quando necessário, é atividade das mais difíceis. Por outro lado, quando se tem a oportunidade de morar na mesma casa com alguém cuja amizade se estende há 11 anos, também é muito prazeroso ver que sempre é possível melhorar e sentir afeto, companheirismo e cumplicidade ainda mais fortes. Também tenho raciocinado sobre a metáfora do pássaro que aprende a voar, que quer sempre vôos mais altos. Uma vez fora da casa dos meus pais, quero mais. Vejo agora problemas que há muito meus amigos já me falavam. Sobre a cidade, possibilidade de empregos, pessoas e lugares. Quero morar em uma cidade maior. Já é uma meta. Tenho alguns meses ainda para planejar, ver e rever a situação. É o próximo objetivo. Li pouco desde que vim para cá. Alguns livros da Agatha Christie aqui, um livro de um escritor mexicano ali. Estou numa fase de transição sobre as coisas que gosto e das coisas que outrora gostava. Nenhuma grande conclusão por enquanto. Pro futuro apenas me desejo serenidade e saúde. Um pouco de determinação e força também.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Tô saindo da casa dos meus pais!

Há muito não escrevo por aqui, parte por ter lido pouco no ultimo ano, parte por estar com tempo escasso, e outra ainda por meu teclado estar estragado (sim!). Mas ando inspirado ultimamente: to saindo da casa dos meus pais pra morar com 3 amigos. Que loucura! Mas boa.

Hoje pintamos o meu novo quarto, no qual estarei habitando dentro de algumas semanas. E apesar de saber que as grandes novidades ainda estão por vir já me deparei com umas situações engraçadas (?). 1°: tinta de parede é cara. CA-RÍS-SI-MA, eu diria. Especialmente se você quiser uma cor bacana.
2 º: adequar seus antigos moveis a seu novo espaço é penoso. Tem coisas que simplesmente não caberão, e lide bem com isso.
3°: seus pais podem ficar tão felizes quanto você com a mudança (algo me diz que eu deveria estar triste)
4°: a grande maioria das pessoas a quem você contar sobre a mudança primeiro farão cara de choque e depois acrescentarão a pergunta: você brigou com seus pais? No meu caso NÃO, dai em seguida eles fazem cara de 'ufa!' e me felicitam pela decisão e pelo grande passo dado.
5°: você - finalmente - aprende a poupar dinheiro em prol de algo durável.
6°: pesquisa no Google coisas que nunca passaram pela sua cabeça, como: como pintar uma parede, como encaixotar adequadamente seus pertences, como otimizar espaços, etc. E aprende muito com isso.
7°: o frio na barriga passa depois de alguns dias.

Ainda vem muito pela frente, e essa é uma das partes mais legais. Eu estava precisando de algo assim. Por ora são essas as novidades, mas pretendo escrever mais por aqui.

Abraços!

domingo, 6 de abril de 2014

"Como ter uma vida normal sendo louca" de Jana Rosa e Camila Fremder

Tenho tido dificuldade em ler um livro todo, inteiro, do começo ao fim. Meu trabalho tem me consumido física e mentalmente -- mas amo ele ainda assim. Definitivamente não é tempo para livros extensos, romances, grandes reflexões. Como ter uma vida normal sendo louca é o primeiro livro que finalizo a leitura desde novembro do ano passado. Parte se deve ao livro ser fino -- nunca imaginei que o tamanho de um livro realmente contaria um dia.. --, parte por ser um livro humorístico, e bom humor é tudo o que tenho precisado.


De alguns anos para cá abandonei completamente os livros de ficção científica, livros que tratem de 'mundos possíveis' e impossíveis, outras dimensões e etc. Gosto daquelas histórias que poderiam ter acontecido ou que aconteceram (não-ficção ainda é meu gênero literário favorito disparado). Mas abri uma brecha e me diverti com esse livrinho em questão. Nadinha do que está escrito lá é coerente. Talvez faça lá algum sentido para uma menina de 12 a 14 anos que ainda está na fase de pico das picuinhas escolares e sonhando com um futuro muito glamoroso.

Em suma, nunca vi tanta bobagem num livro só, mas é uma bobagem engraçada, cativante. Aqui as aparências contam mais que tudo na vida e parecer o que não é, é a lei da selva. Aqueles nossos pensamentos mais loucos e irracionais são tratados ao longo das páginas como se fosse a coisa mais adequada a se fazer, e aí que está o ponto em que ganha os leitores.

As moças escritoras são autênticas e engraçadas, vi uma entrevista em que a entrevistadora questiona sobre as vendas altas do livro (esgotou rapidamente nas livrarias de São Paulo e foi primeiro lugar em livrarias virtuais) e a resposta da Jana foi: porque ao começar a ler o livro automaticamente você começa a perder calorias <3

Gosto de gente e escritas assim: espontâneas, desbocadas. E no humor é o único lugar onde dispenso coerência. Humor só tem que ser engraçado, seja lá como o façam, seja normal, seja louco. No humor apenas seja. .

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Pesquisar as fontes é preciso

Tô lendo um librinho chamado ‘Bermuda: Triângulo da Morte’,escrito por Martin Ebon. Como o título sugere, trata-se de um estudo sobre o Triângulo Bermuda — famoso local na costa oeste norte-americana onde aconteceram supostos desaparecimentos de navios e aviões. Durante toda a narrativa é teclado na questão de que muito provavelmente esses mistérios que ocorreram lá só são mitos por falta de pesquisa. E não nos referimos aqui a estudiosos do assunto, esses já o fizeram e tentam desmitificar o lugar há anos. A pesquisa necessária é a do povo, de quem ouve a história e passa pra frente. 
Nos vários artigos contidos no livro, escrito por vários estudiosos ou pessoas que presenciaram momentos, a ideia é: muitos dos desaparecimentos atribuídos ao local talvez nunca tenham desaparecido nem sequer perto de lá. O desaparecimento de navios era algo comum até a década de 40 do século passado, quando não havia formas de se comunicar com as pessoas do navio, nem elas com as pessoas em terra firme. Depois disso houve alguns desaparecimentos, mas acredita-se que foram por causa de explosões já que não houve pedidos de ajuda, ou qualquer outro tipo de comunicação. 
A questão é: esse livro foi escrito em 1975. Imagina hoje em dia como não anda essa cultura do diz-que-me-diz-que? Não raro vemos por aí afirmações como ‘a gasolina no Brasil é a mais cara do mundo’, ‘os políticos do Brasil são os mais corruptos’, ‘é ridículo como o Brasil tem os maiores impostos’, “a internet no Brasil é mais cara de todas’. Fico me perguntando se as pessoas que falam essas coisas e as que passam pra frente dedicaram algum momento dos dias delas para averiguar se tais informações são corretas. Creio que não. 
Desde que o mundo é mundo nós nos contentamos com informações mastigadas, com senso-comum. É o que acontece com o Triângulo Bermuda: pelo menos 90% das pessoas que sabem sobre o Triângulo nunca leram sobre o assunto, apenas ouviram falar de suas histórias mirabolantes e passaram pra frente. Até porque, bem sabemos, uma mentira bem contada assume ares de verdade. Por que duvidar, não é mesmo? 
(A título de curiosidade para quem venha interessar: a gasolina mais cara do mundo atualmente está na Turquia, e o Brasil possui o 39º lugar no rancking. De acordo com estudos, em 2013 a Somália foi o país mais corrupto. O imposto mais caro do mundo é na Suécia. E sim, apesar de o Brasil ter uma das internetes mais caras do mundo, ele ainda fica atrás da Argentina.)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

American Horror Story - 1ª temporada



American Horror Story (a partir daqui será abreviado para AHS) ao lado de Game Of Thrones, Braking Bed, Glee e outras, é uma das séries que mais tem-se comentado desde seu lançamento. O que eu sabia antes de começar a assistir-- além de que meus amigos amavam -- era que a série tinha temporadas isoladas, que não precisava necessariamente assistir a anterior para entender a atual, uma vez que cada temporada tem uma história própria.

Pois bem.. AHS conta com 12 episódios, é uma série entretedora, com ótimas atuações, o que são dois pontos muito altos. Porém nem só disso vive uma série. E aqui entra a parte crítica: na minha visão de leigo, achei o enredo de AHS um apunhado de cópias adaptadas. O pior: cópias de coisas icônicas. Pesquisei um pouco sobre a série antes de escrever aqui, e li que os criadores disseram que as maiores inspirações para a série são O bebê de Rosemary e O iluminado. Me perdoem, mas foi bem além da inspiração. Acho fácil pegar ideias prontas e recauchutarem. Red Rose e Os Outros são outras duas das "inspirações" bem presentes. Sem contar as referências diretas ao massacre de Columbine usadas no massacre fictício da trama.


AHS me pareceu a junção de todos os clichês possíveis nas histórias de terror: mansão mal assombrada, fantasmas, vizinhança louca. Sem contar o mal dos séculos: algo sobrenatural, que supostamente não deveria ser passional, se apaixonar! Sim, depois de vampiros, zumbis, lobisomens, dessa vez quem se apaixona é a pobre alma penada de um rapaz e não para por aí, -- WAIT FOR IT -- ele também engravida uma personagem!

AHS atira para todos os  lados, copia de todos também, e nisso cria sua fórmula: feito pra agradar e entreter. Pelo visto tem conseguido, uma vez que já está na sua terceira temporada. Não assisti as outras duas e por enquanto creio que não pretendo, mas espero que nelas os roteiristas tenham achado um jeito de encaixar todas as peças dos mistérios que ocorrem durante a trama: coisa que não houve na primeira temporada.

Muito se explica, muito se esclarece, mas ainda assim ficam certas coisas no ar e/ou sem fazer sentido. Sabe aquele erro que acontece muito de roteiristas fazerem tudo por um clímax? Isso acontece em AHS. Mesmo que depois não tenha uma explicação plausível para aquilo, o que importa é que o espectador ficou tenso.

O penúltimo episódio é de longe o melhor e o último é na mesma proporção o mais sem sentido para com o enredo. Neste há espaço para um humor, calma e clima familiar que não houve na temporada toda. Basicamente tem um final feliz, mesmo que atípico àquele que sempre imaginamos.

Na minha opinião está longe de ser espetacular, e com certeza longe de ser um lixo. Porém não há duvidas de que tem muitas outras histórias melhores, sejam em livros ou filmes. Em todo caso fica a dica para assistirem ou se informarem sobre as "inspirações" antes.  

domingo, 25 de agosto de 2013

"O menino do pijama listrado", de John Boyne

Lembro que por volta de 2008 muito se falou sobre "O menino do pijama listrado", de John Boyne. Li muitas criticas e a sua grande maioria -- se não todas -- eram favoráveis à história. Não importa quanto tempo passe, sempre que um livro que envolva o holocausto é lançado, tanto como romances ou diários, chamará a atenção das pessoas. Porque não importa quanto tempo passe essa é ainda uma parte da história que nos toca e indigna.


John Boyne ao contar sua história fez algo inusual: mostrou o ponto de vista de uma criança alemã de nove anos, filho de um comandante próximo a Hitler. Nesse seu toque de originalidade está o ponto alto do livro e ao mesmo tempo o mais baixo. Bruno é uma criança de classe alta, que um dia ao chegar da escola encontra sua criada fazendo as suas malas, pois em cima da hora sua família precisa viajar. A criança é extremamente inocente e até um certo ponto do livro é isso que nos faz gostar tanto da história. Como por exemplo quando ele se refere ao "Fúria", alguém que mesmo o menino não sabendo descrever exatamente quem é, ele sabe que é superior ao seu pai. Claramente vemos que ele se refere ao "Führer".

Mas no decorrer do livro essa inocência acaba se tornando massante. Em especial quando ele chega na sua nova casa e vê que tem uma grade que os separa de um campo onde há muitas pessoas, todas vestindo pijamas listrados. Novamente a pouca idade do personagem faz com que ele não entenda o que exatamente é aquilo, mas para nós leitores, tão conhecedores  desse período que somos, dispensamos apresentações: trata-se de um campo de concentração nazista.

Um dia Bruno sai para fazer um exploração pelo quintal da casa, quando ele se aproxima da grade ele vê que há um menino se aproximando. Esse menino é Shmuel, um garoto polonês que foi levado para esse campo com sua família. Durante todo um ano eles se encontram sempre que possível ali naquele local. E novamente a inocência de ambas as crianças incomoda. Mesmo com os encontros quase que diários, Bruno não toma consciência do que está acontecendo, ou o que é o campo onde seu amigo mora.

A história é emocionante sim, e o final é aterrador -- motivos pelos quais, creio, esse livro acumulou e vem acumulando fãs. Mas não há como negar que falta profundidade tanto em trama quanto em escrita. O livro de forma alguma é hiperestimado, muito pelo contrário, é fácil de reconhecer que ele tem muitos pontos altos. Um deles, por sinal, é o qual eu considero mais importante: ele te prende do começo ao fim. Em tempos em que todo mundo está com pressa, um livro que nos faça querer ler mais e mais é essencial. Mas com certeza há livros melhores sobre o assunto.

Vida longa à Martha Medeiros!

Essa semana, no dia 20, foi aniversário da Martha Medeiros! São 52 anos de vida, dos quais 28 são de carreira literára. Essa carreira ativa já rendeu 9 livros de crônicas, 5 livros de poesia, 5 romances, 2 livros de relatos de viagens e 1 livro infantil. E, claro, esperamos muitos mais nos anos que se aproximam. Para prestar uma simples homenagem reuni meus livros dela para uma foto. Só ficou de fora o "Non-Stop" que está emprestado. E logo esse que foi o primeiro livro dela que li.


Escritor favorito vivo é coisa rara e escritor favorito que inspira a cada livro lançado é mais ainda. Então achei que não haveria forma melhor de comemorar mais esse ano de vida da Martha do que lendo um de seus livros. O escolhido foi "Persona Non Grata", livro de poesias lançado em 1985. A orelha do livro ficou por conta de ninguém mais ninguém menos que Millôr Fernandes, onde, entre outras tantas palavras, ele disse: "[...] Martha Medeiros repete a dose, nem melhor nem pior, apenas excelente". E como você bem deve saber, o que Millôr diz não se contraria.


Quando se trata de Martha não tenho como escolher entre seus livros o meu favorito. Então minha recomendação é: leia o qual quiser, no gênero que quiser. Porque vale a pena. Ela é uma dessas escritoras que tem aquela rara qualidade de através de uma forma de escrita acessível escrever coisas profundas.

E mesmo que pareça bobo escrever isso aqui, uma vez que provavelmente Martha nunca virá a ler esse texto, não posso deixar de desejar feliz aniversário, saúde e tudo de bom pra ela, que é uma das minhas escritoras favoritas.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

"1933 foi um ano ruim", de John Fante

Charles Bukowski diria sobre Fante: "Finalmente aqui está um homem que não tem medo de emoções". As emoções retratadas nesse "1933 foi um ano ruim" são as emoções de Dominic Molise, um adolescente de 17 anos, vindo de uma família italiana, onde há algumas gerações todos os homens tem seguido a carreira de pedreiro. Dominic quer mais para seu futuro.

É impossível durante a leitura não pensar que Dominic é um primo pobre de Holden Caulfield, d'O Apanhador do Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Pobre em todos os sentidos. Dominic é de uma pequena cidade no estado do Colorado, com uma família totalmente endividada. Seu pai está desempregado há 7 meses -- ele atribui isso ao forte inverno pelo qual estão passando -- mas ainda assim ele passa seus dias e noites em um bar, fazendo apostas de sinuca e mantendo um relacionamento com uma outra mulher. A mãe de Dominic é uma pobre coitada, que passa seus dias rezando à Virgem Maria, na espera de melhoras na vida. Dominic também não faz as reflexões profundas que Holden faz nos seus passeios pela cidade de Nova York. Dominic se preocupa, sobretudo, com suas crenças religiosas e com o círculo que se fecha a cada geração de sua família: todos trabalham arduamente, porém, ainda assim todos continuam pobres.

No colégio Dominic sempre se destacou no jogo de beisebol. Fato que faz com que ele trate seu braço como uma entidade à parte do seu corpo. Não à toa Fante teve o cuidado de toda fez que citasse o membro em sua história usasse maiúsculas, O Braço. O final do livro é triste, mas nos faz torcer pelo futuro do personagem principal.

"1933 foi um ano ruim" foi publicado postumamente e talvez por isso, ao final de história, fica um gosto de história inacabada. Após a rápida leitura -- já que são apenas 138 páginas -- é injusto para com o leitor não saber o final derradeiro de Dominic. Mas essa á mais uma daquelas histórias que vem rápido e nos deixa refletindo por mais tempo, matutando sobre sua história e um possível final, condizendo com toda a sua realidade e ainda assim feliz.

"Stephen King - Coração Assombrado", de Lisa Rogak

Desde fevereiro desse ano o mercado editorial brasileiro está mais rico com os lançamentos da Darkside Books. Nesses cinco meses de atividade eles já contam com 9 livros no catálogo, mais 4 edições limitadas de alguns desses livros. Os slogans da editora são sugestivos e fazem jus às suas propostas: "Aposte no escuro" e "Desenterrando clássicos" -- uma vez que os lançamentos até aqui consistem basicamente em livros de horror e afins.
Um dos lançamentos inéditos da editora foi "Stephen King - Coração Assombrado", livro que fez com que sua autora, Lisa Rogak, fosse indicada ao prêmio Edgar Allan Poe de Melhor Biografia -- detalhe que a editora orgulhosamente ressalta na capa da sua edição com um selo hot stamp. Nas 270 páginas dedicadas a contar a vida do escritor, Rogak tenta fazer um retrato de King, juntando todas suas faces: escritor de terror aclamado, pai e marido amoroso, eterno caipira do estado do Maine, filantropo, diretor e roteirista de filmes e televisão, e a lista continua.

Havemos de concordar que não é possível contar 65 anos de vida, entre eles 39 de carreira ativa, em tão poucas páginas, mas não se preocupe: isso se deve porque a autora não se prendeu a pequenezas nem "fofocas intelectuais" que geralmente há nesse gênero. É tudo direto ao ponto, desde a infância aos dias atuais. Fala-se de todos seus livros, os mais célebres contos e adaptações para o cinema e TV.

Stephen ganhou fama quando publicou seu primeiro romance, "Carrie, a Estranha". Nos anos que seguiram seu sucesso literário apenas cresceu com títulos como "O Iluminado", "O Cemitério" e "O Apanhador de Sonhos", só para citar alguns. Apesar de ele não gostar nem concordar quando se referem a ele como um escritor de terror, não adianta: é onde ele mais brilha e, principalmente, por esses livros que será lembrado. Mesmo tendo exitosas experiências fora do gênero, como em "À Espera de um Milagre".

Para pessoas que pouco sabem sobre a vida pessoal do escritor pode ser que se espantem ao descobrir que o homem por trás de histórias tão sombrias e inquietantes é na verdade um cidadão comum, que leva uma vida simplista mesmo tendo alguns milhões de dólares na sua conta bancária. É que Stephen nasceu e cresceu no pequeno estado do Maine, e mesmo que tenha tendado morar em grandes cidades, ele rapidamente constatava que era nesse pequeno estado que estavam suas maiores felicidades e seus piores medos, logo era de lá que saia toda sua inspiração para escrever.


Ainda nesse ano de dois mil e treze (assim mesmo em extenso para respeitar a superstição do escritor com o número treze) está marcado o lançamento de 3 livros inéditos. Mas vale a pena apostar nessa biografia para já ir aquecendo!

sábado, 27 de julho de 2013

[FIXO] Maratona Literária

A "Maratona Literária"  é uma iniciativa inspirada em blogueiros norte-americanos, para que as pessoas leiam mais do que geralmente estão habituadas. Não há uma meta exata de número de páginas ou livros a serem lidos. A regra é clara: apenas leia mais.

Nesses último mês, apesar de eu ter tido muito tempo para ler, li apenas um livro -- mais o livro que estou lendo atualmente. Essa semana garimparei na minha estante livros que estão há muito esperando para serem lidos. Não me comprometo a fazer posts diários, mas tentarei.

Para mais informações, ou para se inscrever na Maratona entre no Café com blá blá blá.

Nesse post serão feitas as atualizações diárias:
29/07: Termino da leitura de "Stephen King - Coração Assombrado", de Lisa Rogak. Eu havia iniciado a leitura na semana passada.
30/07: Leitura do livro "1933 foi um ano ruim", de John Fante.
31/07: Leitura do livro "O menino do pijama listrado", de John Boyne.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"A Sangue Frio", de Truman Capote

Numa manhã de novembro de 1959 Truman Capote se deparou com uma pequena nota no The New York Times sobre o assassinato de toda uma família, numa pequena cidade do estado do Kansas. Inspirado pela brutalidade e o mistério que envolvia o caso na época, decidiu se locomover até o local do crime para escrever não uma reportagem, mas sim um livro sobre o assunto. Truman -- que nesse momento já era conhecido e aclamado pela sua mais famosa novela, "Bonequinha de Luxo" -- viu ali uma oportunidade de iniciar um novo gênero literário, a "literatura de não-ficção". Esse novo gênero tinha como premissa, assim como o nome sugere, unir realidade e literatura. 

Holcomb era mais uma daquelas típicas cidades pacatas do interior dos Estados Unidos, onde seus moradores estavam longe de qualquer suspeita. O casal Clutter e seus dois filhos estavam estabelecidos por aquela região havia décadas, e mais tarde foram descritos pelos vizinhos como "as últimas pessoas na face da Terra que mereciam ser assassinadas". Infelizmente fatalidades acontecem. Numa madrugada de um sábado comum, dois homens entraram na residência da família acreditando que ali havia um cofre -- já que eram donos de uma grande fazenda. O que eles não esperavam é que há muito o sr. Clutter só pagava suas contas com cheques, e tinha em casa uma quantia um pouco maior que 40 dólares. Decididos a não deixar testemunhas oculares, Dick Hickock e Perry Smith, assassinaram com tiros os 4 moradores da casa.
Família Clutter

Nos dias que se passaram toda a população da cidade entrou em pânico. Literalmente da noite para o dia ninguém mais era confiável. Mesmo que essa descrição seja digna de um romance barato de terror, essa era a realidade dos 200 habitantes de Holcomb. Houve famílias, inclusive, que foram embora da região. A partir de um depoimento de um presidiário, que havia sido funcionário do sr. Clutter há dez anos, chegaram aos assassinos. Dick Hickock tão preocupado em não deixar nenhuma testemunha ocular, esqueceu da testemunha principal: seu ex-colega de prisão, que havia lhe contado sobre a família, onde ela morava e sobre o fatídico cofre. 

Nos 4 anos que se seguiram, Hickock e Smith foram de julgamento a julgamento, sempre pedindo uma apelação ao juiz. Até que em março de 1965 o juri chegou à resposta final: os condenados eram culpados do assassinato de 4 pessoas e teriam como punição a pena máxima, a morte por enforcamento. Capote acompanhou todo o caso, entrevistou vizinhos e moradores de Holcomb e teve acesso aos assassinos, criando com eles uma amizade.
Dick Hickock e Perry Smith

A madrugada de 14 de abril de 1965 foi a data escolhida para a pena ser consumada. No local era permitido a presença de 20 pessoas, os condenados tinham o direito de convidar uma pessoa para assistir execução. Ambos escolheram Capote. Trumam que nesse momento já era íntimo dos assassinos -- chamava-os afetuosamente de "os garotos" -- aguentou ver apenas uma das execuções, a de Dick Hickock, que foi o primeiro a ser enforcado. Essa experiência marcou o escritor para o resto da vida. Mais tarde ele contaria que não conseguiu escrever sobre a morte deles pelos próximos dez dias. 
Truman Capote

"A Sangue Frio" foi o nome que Capote escolheu para seu livro, que virou instantaneamente um best-seller, e consagrou-o como o melhor escritor norte-americano de sua época. Capote jamais voltou a concluir um romance e faleceu 20 anos após o lançamento do livro. Mesmo envolto em controvérsias, sobre a veracidade dos fatos e diálogos narrados no livro, "A Sangue Frio" segue sendo um clássico contemporâneo.

Dois anos após o lançamento o livro recebeu uma adaptação cinematográfica, que permaneceu com o mesmo título e você pode ver o trailer: aqui.

Em 2005 e 2006 dois filmes sobre Capote na época em que escreveu "A Sangue Frio" saíram. Primeiro "Capote", que rendeu o Oscar de Melhor Ator a Philip Seymour Hoffmann, por sua interpretação de Truman Capote. E um ano depois "Infamous", que não recebeu nenhum Oscar porém há quem diga que a interpretação de Toby Jones é melhor que a do concorrente.

Sempre houveram rumores de que enquanto o livro foi escrito, Capote e Perry Smith tiveram um relacionamento, e ambos os filmes abordam também esse tema. Enquanto em "Capote" essa relação fica com ares de platonismo, em "Infamous" eles chegam a se beijar. "Infamous" é bem humorado, com um Truman Capote que se veste afeminadamente, e tem um elenco estelar: Sandra Bullock, Daniel Craig e Gwyneth Paltrow, para citar alguns. Já "Capote" não tem essa cara toda de Hollywood, e é um tanto mais dramático, mas ainda assim meu favorito! 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

"Quem é você, Alasca?", de John Green


Quando se tem 20 anos de idade -- meu caso -- é estranho dizer ou pensar "quando eu era adolescente", porque de certa forma sou e não sou mais. A gente cresce, passa por muitas coisas, adquire rotinas tão cheias quanto de qualquer pessoa "adulta" e por aí vai. Isso, para quem lê com frequência, também reflete nas suas leituras. Ano passado, depois de ler a trilogia "Jogos Vorazes", decidi não mais ler livros YA (Young Adults, caso não saiba), por motivos de (1) eu estava achando muito vago, (2) quem sabe eu nunca tenha sido um adolescente convencional, (3) já havia passado pelas loucuras de meu primeiro amor há algum tempo, e esse assunto é obrigatório nesse tipo de livro e (4) nem vamos entrar em questões de triângulos amorosos, traições de amizade, pé na bunda e etc.

Alguns meses após o episódio Jogos Vorazes lembro de que em quase todos os jornais e revistas que eu abria tinha uma reportagem dedicada ao "sick-lit", gênero literário dentro do YA, que tem como característica assuntos como câncer, suicídio, depressão entre outros. Essa "doença literária" é um termo pejorativo porém levado a sério, já que nos últimos anos foi um boom de livros lançados que se enquadram nessa categoria. O livro que trouxe o assunto à tona definitivamente foi "A culpa é das estrelas" de John Green, escritor norte-americano, premiado por livros anteriores, nerd assumido que junto com seu irmão Hank Green faz o VlogBrothers -- um canal no Youtube onde eles discutem desde literatura a assuntos sociais. Os seguidores do canal  recebem o título de NerdFighters.

John Green
John Green estreou sua carreira literária em 2005 com "Quem é você, Alasca?", livro que rendeu a ele os mais importantes prêmios de literatura norte-americana. Miles é um adolescente de 16 anos, nerd, não tem amigos e é obcecado por últimas palavras ditas por pessoas ilustres -- por conta disso ele é um leitor voraz de biografias e autobiografias. Num desses livros ele descobre que o poeta François Rabelais disse, antes de morrer, que estava indo atrás de um "Grande Talvez". Inspirado nisso Miles acredita que indo para a escola interna Curver Creek ele encontrará o seu Grande Talvez (mesmo ele não sabendo exatamente o que é). Lá ele faz suas primeiras amizades de verdade, entre elas, a menina mais rebelde do colégio, Alasca. Não preciso contar que ela é o primeiro amor da vida dele também, não é?

O que me fez gostar muito desse livro é que apesar de ter os assuntos obrigatórios de livros adolescentes (primeiro amor, o primeiro beijo, a primeira vez que bebe e fuma, a primeira vez sexual, intrigas etc) também há muitos outros assuntos que até o presente momento eu nunca havia lido em outro livro para essa faixa etária. Tamanha foi minha surpresa quando descobri que um assunto constante entre os personagens era o contraste entre vida e morte, que mesmo com tão pouca idade já se questionavam sobre o sentido da vida -- isso é, se de fato tem algum. Outra coisa que gostei muito foi um trabalho passado por um professor, que tinha como objetivo analisar 3 religiões sob o mesmo prisma e explicar a solução que cada uma dava uma determinada questão e o possível porquê de ser.

John Green me deu uma esperança no gênero YA, que eu estava precisando. Pretendo ler mais livros dele (e quem sabe até seguir umas dicas literárias que ele dá no VlogBrothers).




(Obs: John Green, assim como eu, é muito, muito, muito fã de "O Apanhador no Campo de Centeio", de J. D. Salinger. Não é lindo? Não sei se é coisa da minha cabeça mas teve vezes que enquanto eu lia o livro eu achava bem similar a forma que o Miles narra com a forma do Holden Caulfield. De qualquer forma, sendo ou não um plágio de narração, Green está perdoado :) 


sábado, 27 de abril de 2013

Um Homem Só (Christopher Isherwood)

Já que em termos literários, filosofar é o que há de mais libertador e aconchegante, durante toda a sua história houveram livros com premissas de narrar um dia na vida de um personagem, sempre com o intuito de mostrar como as coisas podem mudar de uma hora pra outra, ou o quanto podemos pensar e analisar em 24 horas. Houve também quem descrevesse aquele que é o dia que nunca saberemos quando chegará, que depois de toda um vida, ele nos surpreende e coloca um ponto final em tudo. "Mrs. Dalloway" e "Um dia na vida de uma mulher" são só dois grandes exemplos.

Christopher Isherwood fez isso no seu "Um Homem Só", só que dessa vez, menos usual, na vida de uma homem -- e menos usual ainda -- homossexual. George é inglês, há muito radicado nos Estados Unidos, professor de literatura. Há oito meses tem vivido o luto de seu companheiro, que faleceu em um acidente de carro. É de se esperar do enredo, até aqui, muito drama, mas é aí que Isherwood se destaca: a história é triste? Sim, muito. O drama escorre pelas páginas? Não, a sobriedade predomina.

Isherwood foi um escritor e ativista de causas gays dos mais importantes. Em seus livros sempre há ao menos um ponto de vista que venha a ajudar no movimento. Vale lembrar que nos referimos sobretudo às décadas de 50 e 60, quando o assunto era muito mais que um tabu. Neste "Um Homem Só" fica claro que George é apenas o porta-voz dos reais personagens principais da história: os sentimentos. Através disso o autor mostrou à sociedade daquele momento que um homossexual é uma pessoa como qualquer outra, que sente como qualquer outra e que é tão integra quanto. Isherwood é mais um daqueles escritores que mesmo tendo vivido e escrito há décadas atrás, tem pensamentos mais estruturados e mais pé no chão que muitos de nossos contemporâneos -- sejam eles a favor ou contra a causa.

Em 2009, Tom Ford (estilista), deu o que falar quando resolveu adaptar o livro para o cinema. O burburinho em volta foi só elogios, que fique claro. A adaptação respeita o enredo, mesmo sendo menos melancólica e mais glamorosa que a história original -- o glamour está desculpado, vindo de quem veio, não podíamos esperar por menos. No Brasil o filme está catalogado como "Direito de Amar" (Título brega, eu sei, mas assista, vale a pena).

Por mais injusto e triste que seja, Christopher não é mais publicado no Brasil há alguns anos. Em países como Estados Unidos e Inglaterra seus livros seguem com o mesmo prestigio, ora ou outra ganhando novas capas e edições. Nossa sorte é que ainda é possível encontrar suas obras nos melhores sebos.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Desafio Literário #4

A viagem do elefante (José Saramago)
 
Nos seus últimos anos de vida, Saramago, nos deixou duas "pequenas grandes histórias", respectivamente, "A viagem do Elefante" e "Caim". Pequenas em suas extensões, mas grandes em seus conteúdos. Em ambos casos, o autor explora a fundo seu lado de contador de histórias, e o faz muito bem.

"A viagem do elefante", como o nome sugere, narra a viagem de um elefante indiano, chamado Salomão, de Portugal à Áustria. Salomão foi dado de presente ao arquiduque Maximiliano da Áustria, pelo Rei D. João III, de Portugal. À primeira vista o enredo pode parecer fraco e simplista, mas Saramago não equivale a essas características e sempre soube como dar outras dimensões à qualquer história que se propôs a narrar.
 
Apesar de o paquiderme indiano estar presente o tempo todo no livro, a grande estrela acaba por ser Subrho, seu conarca -- nomenclatura dada à quem se especializa no trato de elefantes. Ambos personagens servem como pano de fundo às mais diversas críticas que o autor quis abordar. Desde a burocracia de Estado e a corrupção da sociedade, à Reforma Protestante e Contra-Reforma Católica europeia. Temas envolvendo religião sempre estão presentes nas obras de Saramago, mesmo que em algumas vezes mais sutilmente -- como no caso desta --, mas ainda assim impactantes.
 
Verdade seja dita que vez ou outra o livro torna-se um tanto cansativo. Saramago é um escritor muito presente em seu texto, ora dando opiniões que ficam claras não ser dos personagens, ora em momentos de epifania. E nesses momentos onde o escritor fala com si mesmo é comum pensarmos: mas o que isso tem a ver com a história? Porém, ainda assim, o livro continua sendo um dos melhores.


Desafio Literário #3

O homem que matou Getúlio Vargas (Jô Soares)
 
Que Jô Soares é um intelectual não é novidade para ninguém. Seu programa de entrevistas diário é criticado por alguns, que alegam que o apresentador interrompe em demasia seus entrevistados e que seu humor já está um pouco ultrapassado. Esquecem que características que fazem um bom ou mal humor são peculiares de cada espectador. Em contrapartida, a fórmula de seu programa ainda é copiado descaradamente por outras emissoras. Sim, há qualidade.

Jô também é ator e escritor, e em ambos casos prefere usar sua estrela maior: a comédia. Em quanto escritor, ele toma lá suas liberdades na hora de criar em cima de fatos, mas tudo em nome do humor. Em "O Xangô de Baker Street", seu romance de estreia, Jô trás à solos brasileiros o mais prestigiados dos detetives, Sherlock Holmes, para solucionar crimes relacionados a pessoas próximas à Dom Pedro II. Sherlock Holmes, sabemos, é um personagem fictício, enquanto Dom Pedro II goza hoje em dia de seu túmulo real. Por essa mistura de ficção com não-ficção, que Jô encanta ou espanta. Tudo depende do quão aberto é o leitor.
 
"O homem que matou Getúlio Vargas" é a biografia fictícia, de um assassino fictício, Dimitri Borja Korozec, que tem ligações de sangue com a realidade por ser sobrinho de Getúlio Vargas. Mas o que um homem com nome e nascença sérvia tem a ver com um ilustre brasileiro? Calma, senhor Jô sabe justificar. Dimitri foi criado para cometer crimes perfeitos, aluno esforçado, sofria de apenas um problema crônico: era desastrado.
 
Na sua trama, Dimitri quase deu o ponta pé inicial para a Primeira Guerra, esteve envolvido com Al Capone e Franklin Roosevelt, mas são nos capítulos em que o protagonista se envolve com Mata Hari que a graça do livro chega ao seu ápice. Mata Hari, caso não saiba, foi uma dançarina indiana mais tarde acusada de ter sido bode expiatório na Guerra. Acabou por ser fuzilada, apesar de ainda ser controversa a sua participação ou não no plano politico. É acrescentada a sua história um devotado ajudante, o anão hindu Motilah -- também devoto à deusa Kali.
 
 No decorrer de seus encontros e desencontros, aventuras e desventuras, Dimitri vai traçando aos poucos seus planos e ambições, até chegar ao derradeiro final anunciado no título. Jô bebe da água de muitos escritores, mas ainda assim tem seu merecido lugar ao sol, já que além de criar, recriar, fazer rir e nos prender, também nos convence que caso não tivesse dado certo como entrevistador teria, com certeza, se feito notar pela escrita.